Ainda há viagens quase grátis

Vivemos num país esquizofrénico, em que os únicos “empregos” que não exigem experiência prévia são os dos governantes ou dos CEO’s, sendo que anteriores rombos em empresas parecem melhorar o currículo

(À laia de disclaimer: mantenho uma relação amor/ódio com a TAP. Sou crítica mas, quando posso, opto, presumo que por razões emocionais, por voar na nossa companhia aérea. Faço-o desde que nasci. Como explicarei mais abaixo, talvez isso me habilitasse a ter algum cargo, tendo presente os critérios de selecção que têm sido usados, mas fica já aqui a declinação.)
Diogo Lacerda Machado tornou-se conhecido da maior parte dos portugueses pelo seu apregoado altruísmo, ao exercer funções de consultor do Governo, numa primeira fase em regime de invocado “voluntariado”. Logo várias vozes se levantaram, recorrendo-se ao adágio que contraria o título destas linhas. De facto, vivemos num país esquizofrénico, em que os únicos “empregos” que não exigem experiência prévia são os dos governantes ou dos CEO’s, sendo que anteriores rombos em empresas parecem melhorar o currículo.
Relembre-se que a TAP foi vendida sob a justificação de que a empresa precisava de renovar a frota e o Estado não podia colocar lá mais dinheiro, sem que a maior parte de nós se tivesse questionado sobre o motivo invocado para se passar o controlo da mesma para duas almas, uma das quais sem experiência relevante no sector e outra sem a nacionalidade exigida. Ainda com o Governo de Passos Coelho, passou incólume a particular circunstância de, apesar de se dizer que Humberto Pedrosa detinha 50,1% do consórcio Gateway e David Neeleman os restantes 49,9%, na realidade as acções do último valiam mais do que as do primeiro.
Com a mudança de governo, parte do seu capital social foi novamente revertido, em negociações tidas com Diogo Lacerda Machado a representar o Estado, posto do qual saltou para administrador não executivo, quiça alicerçado no curriculum que construiu na Geocapital e no âmbito da qual também foi responsável pelo negócio ruinoso da VARIG, cujos prejuízos causados à TAP ainda se fazem sentir.
Para que conste, a alegada renovação da frota que foi apontada como um dos motivos subjacentes à venda está a ser feita com os aviões da Azul de David Neeleman que estavam encostados e a pagar o respectivo custo no Brasil. Neste intervalo, a TAP está cada vez mais parecida com uma low-cost com preços de primeira linha, voando com tripulações mínimas de segurança e inviabilizando-se o que se designa habitualmente por serviços comercial, ou seja, porem-nos à frente uma sandes fria e um sumo de qualquer coisa. Para aqueles que têm de viajar para as ilhas, designadamente Porto Santo, os preços assumem valores astronómicos, sendo mais barato viajar para a República Dominicana do que dentro do país. Há mistérios insondáveis e os preços da TAP são um deles.
De facto, há viagens quase grátis. De mero amigo do Primeiro Ministro Lacerda Machado viajou até ao Conselho de Administração da TAP, tendo no currículo “gostar muito de aviões”, conhecer de perto a VARIG, ter negociado a reversão parcial da privatização e, pasme-se, o SIRESP. Contudo, para os comuns mortais, as viagens da TAP pagam-se e bem.

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