Autárquicas, os discursos do fogo, do reordenamento e da reflorestação

Um dos temas que integram as campanhas eleitorais para as próximas eleições autárquicas é o ordenamento florestal. Nos municípios de economia agrícola mais dependente do rendimento florestal, tornou-se imperioso saber como vai ser o futuro, como se deve processar a reflorestação face aos sucessivos anos de incêndios devastadores.
Em Pedrógão Grande, onde morreram 64 pessoas num grande incêndio florestal em Julho, os candidatos à Câmara Municipal são todos defensores de reforçar as medidas preventivas como, por exemplo, o recurso a mais sapadores florestais, a construção de perímetros de defesa e um uso múltiplo da floresta de modo a que o eucalipto e o pinheiro não continuem a ser hegemónicos na floresta portuguesa.
Em Figueiró dos Vinhos, três dos quatro candidatos à Câmara Municipal vêem com bons olhos um projecto de reflorestação para uma maior diversificação da floresta, mas há quem sublinhe que não se pode ser radical.
Jorge Abreu, presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos e recandidato pelo PS, considera que será necessário criar restrições à plantação de espécies mais combustíveis, nas áreas mais próximas dos aglomerados populacionais e da rede viária, ou de espaços industriais, turísticos e outros, permitindo apenas espécies mais resistentes ao fogo nessas zonas. A este discurso, o candidato do PSD, Filipe Silva, contrapõe que não se pode considerar que “o inimigo é o eucalipto”, considerando que a base da economia local passa pela floresta intensiva e pelo eucalipto.
Em Pedrógão, o PSD tem um discurso muito diferente sobre a reflorestação. O candidato João Marques diz que será necessário apostar num uso múltiplo da floresta – agricultura, pecuária, turismo e ambiente.
Em Góis, Coimbra, onde em Junho se registou igualmente um incêndio devastador, três dos quatro candidatos à Câmara reconhecem a necessidade de reflorestar com espécies autóctones as áreas devastadas pelo fogo, mas alertam que o retorno económico do eucalipto pode ajudar a travar a desertificação.
A ideia de conciliar a plantação de árvores de crescimento lento, como o carvalho e o castanheiro, com a manutenção de algumas áreas de eucaliptal, para assegurar rendimentos aos proprietários rurais no médio prazo, é partilhada por José Rodrigues (Grupo de Cidadãos Eleitores Independentes por Góis), Maria de Lurdes Castanheira (PS) e Rui Sampaio (PSD).
A CDU, que candidata António Flores Tavares, converge com as outras candidaturas quanto à necessidade de assegurar o ordenamento florestal no concelho de Góis.
Basicamente, com poucas excepções, todos os candidatos autárquicos em concelhos afectados pelos incêndios aceitam que será preciso sacrificar, em alguma medida, a rentabilidade da floresta em prol da segurança das populações e do património natural.
Como acontece noutras áreas, a aposta em monoculturas é perigosa apesar de ser, aparentemente, economicamente mais rentável. Se os produtores de madeira de eucalipto e pinheiro e a indústria da pasta de papel de outros derivados da celulose e os proprietários dos terrenos tivessem de pagar os custos dos combates aos incêndios e as indemnizações às vítimas, talvez chegassem a conclusões diferentes sobre a rentabilidade do seu negócio.

 

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