Balsemão, o fracasso aos 80

Balsemão faz hoje 80 anos, o que já é uma bela idade. Há muito boa gente que não viveu tanto tempo. Principalmente, há muito boa gente que não viveu bem durante tanto tempo. O que não é o caso deste aniversariante. Nasceu rico, vai morrer rico…
O que eu lhe quero dizer a ele, hoje, é que não sei se ainda está a tempo de se arrepender. Não de pecados de ordem espiritual, isso é lá com ele… mas dos pecados cometidos durante a sua longa carreira de empresário e gestor.
O “grande patrão” dos media portugueses tem feito asneiras em catadupa. Até dá ideia de que nunca percebeu que os sucessos que tem tido se devem à criatividade, à irreverência e ao engenho dos que têm trabalhado nesses projectos. E que as coisas caem quando esses criativos são substituídos pelos yes-men medíocres sem nervo e sem espinha.
Balsemão conseguiu criar uma imagem de patrão tolerante, o patrão-jornalista que respeitava acima de tudo a liberdade de expressão, mas isso não corresponde à verdade. Em muitas situações controlou a informação que se produzia nos jornais e revistas e no canal de televisão que detinha, muitas vezes despediu quem o desafiou, algumas vezes tentou censurar conteúdos, cortar notícias, evitar má-publicidade que o afectasse directamente a ele ou a algum dos seus amigos.
Conheço vários desses casos, mas não os vou citar aqui. Quem quiser que se chegue à frente e que os exponha. Na verdade, a maioria das pessoas afectadas pelas decisões de Balsemão sempre se calou com medo de represálias ainda maiores. Balsemão gosta de criar listas negras de intocáveis, gente que pode morrer de fome que ele não se importa. E há muitos jornalistas que já estiveram nessas listas, há outros que ainda estão, pessoas a quem ninguém dá trabalho com medo de afrontar o poderoso Balsemão.
Foi o caso de Emídio Rangel, por exemplo, perseguido caninamente pelo ex-patrão. Dito pelo próprio Rangel, Pinto Balsemão tudo fez até o conseguir proscrever dos media. E foi o caso de muitas outras pessoas.
O que se passou na SIC vivi “ao vivo e a cores”, mas acredito que o processo se tem repetido nos jornais e revistas que lhe têm passado pelas mãos. Primeiro rodeia-se de gente competente, depois, quando acha que já não precisa deles, despede-os. No fim só se salva da falência se consegue vender aquilo a alguém, como já aconteceu antes e vai acontecer de novo muito em breve.
Quando a SIC entrou em declínio, em 2001, depois da TVI ter estreado o “Big Brother”, Balsemão reuniu a estrutura do canal, explicou como ele via a crise e em vez de pedir mais empenho e rasgo, pediu uma lista de dispensáveis. Queria 300 nomes para despedir e aliviar a empresa desse encargo. A SIC iniciou nesse dia esse método notável de gestão sustentado em despedir cérebros em vez de aumentar a qualidade da produção. Sem querer pôr-me em bicos de pés, nessa reunião fui o único a reclamar dessa decisão e a dizer-lhe que não, que em vez de despedir devia reinvestir alguns dos muitos milhões que já tinha ganho em programas capazes de reconquistar mercado e combater com eficácia o “Big Brother”. Balsemão preferiu jogar pelo seguro, gastar menos, ganhar menos, acomodar-se a ser o 2º canal, ou até mesmo o terceiro, em termos de audiências. O que ele queria, mesmo, era continuar a ganhar dinheiro, apenas.
Hoje, o conjunto das suas empresas de media tem uma dívida bancária impagável. Mas nisso não é o único no panorama empresarial português.

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