O Diabo veste Prada

(Ou da divulgação da arte de guardar garrafas de vinho em envelopes)

Quer Sócrates venha – ou não – a ser condenado, não é indiferente sabermos que tinha um plano para calar a imprensa incómoda. E é justamente esse plano que me faz crer que, apesar de tudo, os Correios da Manhã e os Sois desta vida devem existir. Ainda que não gostemos deles. Principalmente quando não gostamos deles.

(O já tradicional disclaimer surge-me com evidente clareza: não tenho qualquer simpatia pela maior parte dos órgãos de comunicação social. Acho até que, em rigor, por nenhum. Também começo a ter poucas ilusões sobre a maioria das notícias que vemos publicadas e cuja razão de ser está muito mais longe do dever de informar do que de fretes a quem os ditos grupos devem dinheiro. Contudo e ainda assim, prefiro uma imprensa, mesmo quando é condicionada até por aqueles que financiam os ditos grupos, que nenhuma imprensa. Vem esta declaração de interesses a propósito das escutas no âmbito do processo Marquês que a Cofina persiste em publicar, num claro ajuste de contas em que surge acompanhada desse farol da ética jornalista de seu nome arquitecto Saraiva. O que este último se permitiu fazer, designadamente divulgando conversas privadas com pessoas que já nem se podem defender diz apenas da sua natureza e faz-me pensar que o problema de pessoas assim é dar-se-lhes espaço. Despida das vestes de jurista e não obstante a repulsa que, muitas vezes, aquele grupo, por um lado, e aquele simulacro de semanário por outro, me conseguem criar, o que é certo é que essas notícias têm tido um papel relevante numa certa moralização da política, se não pela mudança de mentalidades, pelo menos pelo medo de, um dia, os ditos verem a sua cara num qualquer Correio da Manhã. Sucede que, felizmente, não há espaço para todos serem iguais aos dois citados e, por esse motivo, convinha que o jornalismo de investigação, espécie em vias de extinção neste país, se voltasse a desenvolver.)

Ficámos esta semana a saber que, a fazer fé no que diz a Revista Sábado, Sócrates tinha gostos caros que iam além das férias e dos célebres fatos da Prada. Nada contra, excepto se se vier a provar que tal sucedia com o dito dinheiro dos subornos que, segundo o que parece ser a tese da acusação, terá recebido. Desconheço se tal efectivamente sucedeu e já ando nos tribunais os anos suficientes para saber que, qualquer que seja o resultado, a verdade, muito provavelmente, estará ao largo. Como ao largo está a maior parte dos ditos milhões, cuja factura, no entanto, nos é dirigida.

Não sei se Sócrates é o Diabo, apesar do Grupo Cofina e do Sol nos tentarem convencer que sim. Sei, apenas e já não é pouco, que veste Prada e gosta de garrafas de vinho que surgem em envelopes. Não é para todos, de facto, principalmente quanto à última parte, a qual exige uma perícia que nunca vi ser aplicada. Mas, refira-se, também não é para todos estar há mais de um ano à espera de uma qualquer acusação, seja ela qual for, incluindo se se lhe imputar um estranho e incoerente mau gosto na escolha dos peugos para correr.

O mais relevante, contudo, é o que menos retemos, presos que estamos ao carácter quase pitoresco do que se está a começar a saber. Quer Sócrates venha – ou não – a ser condenado, não é indiferente sabermos que tinha um plano para calar a imprensa incómoda. E é justamente esse plano que me faz crer que, apesar de tudo, os Correios da Manhã e os Sois desta vida devem existir. Ainda que não gostemos deles. Principalmente quando não gostamos deles.

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