Eu show Sócrates

É preciso começar por dizer que Sócrates é um mestre na arte da política. Nestes tempos que passam é talvez mesmo o melhor de todos os políticos portugueses dos últimos 20 anos – a léguas. Reúne em si uma mistura que lhe dá uma aura de carisma, assertividade, segurança, cultivando e gerindo esta imagem com cuidado e calculismo. Não vejo nada de mal nisto. Insisto, a política é a gestão da percepção que o público tem do actor. E Sócrates fá-lo melhor do que ninguém. Nem existe outra maneira de explicar como é que mesmo estando na prisão, continua a arrastar atrás de si uma turba-multa de indefectíveis de uma lealdade vociferante. Mesmo perante todos os indícios que apontam para que politicamente seja vector de transmissão de um miasma altamente contagioso. Veja-se como no debate de ontem à noite entre candidatos à Câmara de Lisboa, Assunção Cristas não deixou de lembrar o passado de Fernando Medina como Secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional e depois da Indústria de governos de Sócrates.

E sempre fez parte do arsenal de Sócrates a fina arte dos timings que consiste não apenas no que se diz, mas igualmente no que não se diz.

No dia 1 de Setembro Sócrates lançou no youtube um vídeo (aqui o primeiro capítulo, mas há mais 3 – https://youtu.be/VuazAGlXlYs) em que proclama que se vem defender de um pretenso embuste criado pelo Ministério Público. O suposto esquema implicaria Sócrates e ao seu governo de terem tido intervenção activa no bloqueio da OPA da Sonaecom à PT que decorreu no período instalado entre Fevereiro de 2006 e Fevereiro de 2007 – tentativa essa de aquisição que acabou por falhar. Mas não é esse o aspecto que me interessa aqui, os números são o que são – e como dizem os brasileiros acerca da estatística: “é como o biquíni, mostra tudo, menos o essencial”.

Louvemos a inovação – Sócrates não toma a cicuta e lança a política portuguesa numa nova era – a da utilização das novas tecnologias para falar directamente com o público.  Sócrates opta por um meio em que consegue expor uma história toda ela muito coerente, bem alinhavada, plausível – e o vídeo tem ainda a grande vantagem (para ele) de nunca ser interrompido por quaisquer inoportunas perguntas, esse escrutínio que há quem insista ainda em fazer. O contraditório em Sócrates apenas pode ser exercido por ele, nunca contra ou sobre ele.

Assim, durante mais de 11 minutos somos submetidos ao Show Sócrates – ele argumenta, ele invoca, ele apresenta factóides de um ângulo que o favorece. Sócrates fala a verdade, os factos que refere são inquestionáveis, sobretudo porque são a sua verdade. Mas existem contextos. Se tal como n’O Pêndulo de Foucault de Umberto Eco é possível criar a aparência de verdade com factos dúbios, mais fácil o será fazer com alguns outros criteriosamente escolhidos.

Refira-se en passant que de facto a PT perdeu quota de mercado durante os anos do governo Sócrates. E isso aconteceu porque a PT considerou que seria melhor para a sua operação se em em Outubro de 2007 atribuísse à PT Multimédia a possibilidade de concorrer consigo mesma no mercado de telefone, cabo e internet. A PT criou a sua própria concorrência, numa lógica de espiral de ramificações, algumas delas, sem outra explicação que não seja a criação de complicação pela complicação.

Adiante – Sócrates é um político hábil e atento, profundamente reactivo a qualquer mudança de sensibilidades e segue o mundo com atenção. Não lhe deve ter escapado a forma como Trump usa os media social – em especial o Twitter. Trump, através daquela ferramenta, comunica directamente com o público, com o seu público, a quem alimenta com as suas verdades, sem que estas sejam peneiradas pelos jornalistas ou por quaisquer outras pessoas. Sócrates percebe que assim nem precisa dos meios de comunicação social tradicionais – ele cria o seu próprio veículo de transmissão de mensagem. Sócrates, tal como Trump, percebe que os media tradicionais não lhe são favoráveis porque têm a mania de os confrontar com outras verdades que não apenas as suas. Assim urge contorná-los indo directamente a casa do consumidor final.

Ao carregarmos no play, surge-nos pela casa dentro um Sócrates em mangas de camisa que fala directamente connosco em intimidade cúmplice. Senti que poderia ter ido um pouco mais longe, poderia ter sido mais coloquial, pá, que o vídeo ficaria mais porreiro. Estarmos com ele na sua biblioteca lhe permitiria essa liberdade. No entanto, a aparente informalidade esconde um profundo calculismo que estão por detrás destes 11 minutos. Ao contrário do que parece, esta encenação (porque disso se trata) é muito cuidade e estudada. Desde logo a iluminação é perfeita e sem sombras (tentem fazer o vosso próprio vídeo e comparem o resultado), há teleponto, saltam jingles sonoros, atravessam-se separadores, desenrolam-se animações digitais – tudo sem falhas. Discreto, mas perfeito. Tão perfeito que nem parece um trabalho profissional. Mas sem dúvida que o é. E que deve ter custos importantes, mas estas seriam perguntas para outro texto. Aqui o que temos é Sócrates a gerir as percepções.

Outra nota. Estes vídeos foram lançados no dia da reabertura dos tribunais. Surgem cada vez mais rumores de que a acusação da Operação Marquês está para breve. E Sócrates continua, como sempre, a jogar em todos os tabuleiros, dentro e fora do tribunal.

Em breve haverá mais movimentações. É este o mundo real – pelo menos no Show do Sócrates.

 

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