O direito a negociar

Às vezes há coisas que me fazem ferver um pouco pela irracionalidade ou prosápia com que são abordadas, a ligeireza leviana com que temas complexos são tratados por quem nada sabe deles, seja porque não os estuda, seja porque está de fora, alheio a particularismos que fazem toda a diferença. Le bon Dieu est dans le détail – como escreveu Flaubert.

Eu não faço ideia de quais são os específicos das negociações entre a AutoEuropa e os Trabalhadores. O que sei é que de ambos os lados estão interesses conflituantes que tentam convergir numa solução. Nada mais saudável. Por isso é que existe negociação – caso contrário haveria apenas imposição.

Não alinho em dramas histriónicos ou gongorismos ideológicos, mas simplisticamente poder-se-ão resumir assim as posições: a AutoEuropa tenta obter o máximo de prestações dos seus trabalhadores com o mínimo de custos, os Trabalhadores tentam obter o máximo de vantagens pela prestação de trabalho que vão efectuar. Um jogo de forças clássico – nada de novo desde que um homem passou a trabalhar por conta de outro.

Nesta negociação, é compreensível que cada um use as armas que tem: a AutoEuropa ameaça que fecha portas, que vai cortar postos de trabalho, que vai perder encomendas. Os trabalhadores usam também do que a lei lhes permite: a greve. Até aqui tudo muito certo, tudo legítimo. Quem nunca participou em qualquer negociação sabe que são frequentes os murros na mesa, as saídas de sala, as posições muitas vezes parecem inconciliáveis, até o serem de facto. Ou não.

Mas é com estranheza que assisto a que haja quem que estando de fora, se entretenha a tiro de bombarda a demolir as posições dos Trabalhadores acusando-os de estarem a por em causa os seus próprios postos de trabalho, como se não fossem, antes de todos, os trabalhadores os mais interessados em manter os seus postos de trabalho. Acusam até os trabalhadores de falta de patriotismo porque a Nação precisa da riqueza que eles produzem. Vilões, que se recusam a vender o seu próprio trabalho e ainda exigem contrapartidas!

Tudo isto me parece absurdo. E se existe uma luta intestina na comissão de trabalhadores da AutoEuropa, não sou eu a centenas de quilómetros que me vou por a mandar bitaites. De resto, vou enviar daqui a minha posição: Trabalhadores da AutoEuropa, vocês entendam-se entre vocês e não me peçam ajuda que eu não percebo nada disso, está bem?

E já agora, só para lembrar uns detalhes. O salário mínimo nacional, o direito a uma jornada máxima diária/semanal, direito ao subsídio de desemprego, direito à baixa paga por doença, direito à proibição do despedimento sem justa causa, direito a licença por maternidade/paternidade, direito à pensão por invalidez ou morte, direito a férias pagas, proibição do lock-out e da discriminação em função de género ou outros factores, direito a exercer o trabalho em condições de salubridade e segurança física e moral e, maior do que todos, o direito à greve, foram conquistados depois de muita luta, esforço e perda de vidas – e que devem ser respeitados com a seriedade que o sangue humano merece.

E aquando das lutas por todos esses direitos sempre as entidades patronais disseram que iriam fechar portas porque não conseguiriam exercer de forma rentável as suas indústrias. E no entanto continuam a existir empresas em laboração, e umas que surgem todos os dias e crescem e prosperam.

Outra nota – as empresas mais disputadas pelos trabalhadores, algumas das que registam os melhores indicadores de rentabilidade, são também aquelas que não olham a meios para terem os seus trabalhadores felizes – porque um trabalhador que está bem no local de trabalho é sempre mais produtivo e rentável.

A quem está de fora: candidatem-se à AutoEuropa.

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