O Grande Logro

Em 1941 as tropas italianas na Líbia encontram-se em dificuldades graves, e os alemães enviam em auxílio uma força liderada por Rommel. A desproporção de forças era grande a favor dos Aliados enquanto não chegassem reforços, pelo que Rommel chegado a Trípoli, para ganhar tempo, manda construir silhuetas de tanques que coloca nos seus Volkswagen. Com molduras de madeira e cartão os aliados foram dissuadidos de atacar num momento de fragilidade.

Montgomery planeou a Operação Bertram em 1942, no mesmo cenário norte-africano: construíram-se maquetas de cenário de carros blindados com o objectivo de enganar o exército italo-germânico quanto à localização e poderio do exército inglês. As forças do Eixo, enganadas, abstiveram-se de atacar aquelas posições. O logro foi um sucesso.

Portugal, 2017. Tancos. O paiol do Exército é saqueado por ladrões. Fizeram um buraco na rede e carregaram o armamento para uma carrinha comercial na beira da estrada. Planeamento profissional cronometrado ao segundo evitando as rondas que se sucedem a cada 20 horas. Nenhum rasto é deixado. Diversas caixas com muito armamento são levadas. 15 dias volvidos ainda ninguém sabe ou tem pistas de quem foram os assaltantes.

Durante uma quinzena os meliantes julgam estar a salvo e na posse de armamento valioso: lança-granadas, munições, explosivos e sei lá que mais. Material bélico capaz de deitar abaixo um avião, fazer explodir prédios, descarrilar comboios. A pés juntos o Governo assegura  que tal material nunca chegará a mãos de terroristas – com base em nebulosas informações que asseguram estarmos perante criminosos de moral intocável, gatunos éticos. O armamento irá parar às mãos de, se tanto, pilha-galinhas ou outros marginais suaves. No reino podemos dormir tranquilos – apesar de se reforçar a vigilância no Banco de Portugal (coitados, percebemos que são estrangeiros, não devem ler as notícias de que estamos falidos).

Eis se não quando o Governo e o Exército revelam que tudo não passou de um fantástico plano para gozar o pagode à grande! Tudo foi um logro – as armas estão chochas porque fora de prazo! Os misseis se disparados no máximo darão cabo de um dedão grande do pé de quem o dispara, porque murcho, logo tombará inerte, as granadas são pisa-papéis decorativos, e as munições mofas, só vendidas a peso para sucata. Que grande manobra de diversão do Exército!, o paiol guardava armas moles, que as boas, as verdadeiras, aquelas que funcionam, estão noutro lado, provavelmente sem qualquer guarda para não levantar curiosidades! Algum dia em Tancos, no paiol?! Onde já se viu? Julgam que isto é um país de gente que anda a dormir na parada!?

Volvido meio mês de fartas gargalhadas, de amplos chistes jocosos na imprensa internacional, eis que casquinando surge vindo das férias o homem providencial – o nosso Primeiro-Ministro, o Condestável Costa, a anunciar este brilhante esquema castrense! Que vasta gaitada de riso se ouviu por todos os países da NATO! Admiração e prestígio cobre estes fantásticos portugueses! Livram-se de armamento obsoleto sem pagar um cêntimo pelo seu abate – basta fingir que o guardam que alguém se convence que aquilo vale a pena. A arte da guerra corre-lhes no sangue desde o ultimato inglês (também ele um embuste para levar os ingleses a impedirem-nos de ligar as duas costas africanas no que seria um empreendimento ruinoso).

A hilariedade espalha-se pela cristandade e alguns detalhes tornam-se agora evidentes: a enxurrada de demissões na tropa foram um engodo, era tudo faz-de-conta neste Exército! Era lá possível se isto não fosse tudo planeado que tantos militares de carreira se demitissem?! Nunca! Só se tivesse havido falhas graves! O que nunca aconteceria. E as congratulações ficam estampadas na imprensa – povo, ficai descansados, se virem alguém com um lança-granadas, riam-se porque é inútil! Se virem um míssil apontado a um avião, sentem-se porque no máximo são foguetes de estalo.

Amigo malandro que nos roubaste as armas, um aviso, estão verdes, não prestam. O Governo é fecundo na arte da farsa – até o Ministro da Defesa é um boneco de papelão. Às vezes mexe os olhos, mas é apenas para parecer real.

Esperamos em breve condecorações com a Ordem do Embuste.

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