O Oráculo de Guimarães

A única certeza acerca do futuro é que ainda não aconteceu. O devir é uma opaca incógnita em cujo desenrolar tudo é possível, o mais improvável dos acontecimentos pode encontrar um caminho até à realidade surgindo à nossa frente. A certeza da incerteza é tanto fonte de esperança, como fonte de temor. Não se estranhará que desde o alvor dos tempos o Homem tenha procurado descortinar por entre as brumas das madrugadas ainda não chegadas, o que surgirá em frente – para que, de alguma forma, se possam precaver. Seca? Aprovisionamento de água. Guerras? Aprovisionamento de riquezas. Divórcio? Ocultação de bens. Eleições? Cacicam-se eleitores. Há mais motivos, mas ficam só estes exemplos mais corriqueiros.
E eis que chegamos aos oráculos – mediadores das mensagens dos deuses através de quem estes exprimiam as suas vontades e projectos, pelo contacto privilegiado com o poder mereciam cuidada atenção de quem os consultava e de quem os ouvia. Os oráculos são universais nas diversas culturas humanas, respeitados e temidos, guiavam os povos e tinham sobre eles grande ascendente. Os Antigos Gregos contavam com os de Delfos e Pafos, no tempo da Roma Imperial, as Sibilas e por aí fora. Ainda hoje em dia, nas religiões sincréticas brasileiras as mães de santo, nos seus terreiros, usam búzios. Esta pulsão telúrica para se perscrutar o futuro garante que adivinhos, videntes, sempre fossem populares – alguns ganhando grande fama que se estica até hoje, como Nostradamus.
Na actualidade, continua a ser uma actividade popular. Os americanos chamam a Warren Buffet o Oráculo de Omaha, pela sua habilidade em antecipar os mercados, algo que o fez rico como Creso. Em Portugal tivemos o tracosense Bandarra, o Benfica foi buscar uns quantos à Guiné, há a Maya e, claro, LMM na SIC – o Luminoso Mestre Mendes.
Mestre Mendes (para abreviar) domina algumas das principais técnicas que devem constar do estojo de qualquer bom augure: a aura de mistério com que rodeia a forma como chegaram até si as previsões, o domínio de arcanos poderes que lhe trazem o futuro numa bandeja, as enevoadas vozes que das sombras lhe permitem aceder a saberes secretos, envoltas em névoas e sombras, que lhe dizem coisas reservadas, só a ele e apenas a ele, por ser merecedor de toda a confiança.
Depois, a convicção peremptória com que derrama suas predições é de tal forma assertiva que ficam gravadas no éter durante toda a eternidade, ou pelo menos, até ao dia a seguir, altura em que alguns arautos da imprensa servem de caixas de ressonância, gongorizando os desígnios altíssimos que são debitados pela boca do Luminoso Mendes (para manter a designação curta). Sim, porque LMM (em breve) não é mais do que uma marioneta dos poderes cujos nomes não podemos pronunciar, ao serviço de suas potestades, vai-nos informando do futuro e do que nos reserva, a nós incautos viajantes desta bola planetária. O serviço de informação dominical ajuda-nos a prepara a semana até ao próximo Sabbath graças aos serviços cabalísticos de Mendes que por ele são disparados – porque de facto, se há instrumento com que o Luminoso Mestre Mendes possa ser comparado é com uma peça de artilharia do séc. XVI – ora vejamos: ambos são de carregar pela boca, completa ausência de precisão, podem ser carregados com metralha, e fazem mais fumo e barulho que danos.
Ora vejamos, quanto ao primeiro critério, ele parece evidente – LMM fala. É tudo o que faz. Ao contrário de Warren Buffet que egoisticamente comprova a existência de poderes ficando cada vez mais rico, o Luminoso, que se saiba, não guarda para si e partilha com todos do seu púlpito o que até si chega. Falando.
Tal como as bombardas, Mestre Mendes, pouco acerta. A Grécia iria sair do Euro? Não quer dizer que tenha falhado, pode é ter estado certo antes do tempo, mas os anos passam e nada acontece. A coligação PS/PCP/BE não iria durar? Nos primeiros meses fê-lo com a insistência de quem tem certezas. Quase dois anos depois, o inevitável permanece teimoso. Recentemente antecipou números do INE? Desta vez acertou na previsão daquilo que o Instituto já havia publicado – é uma nova forma de vidência bem mais agradável do que perscrutar vísceras, chama-se ler. Acessível apenas a uns quantos iniciados.
Esta falta de precisão, LMM compensa com a abundância de previsões que faz, em rajada, fogo cerrado, para todos os quadrantes. Pode não acertar todas, mas algumas vão no alvo, eventualmente, e como é um homem optimista, o copo meio cheio supera em larga escala o alagamento de erros que provoca à sua passagem.
E por fim, a efemeridade da vida leva a que, dissipado o fumo das previsões, normalmente lá por terça-feira, já ninguém se lembre do que foi dito. A antecipação daquele momento ao domingo é grande, o aparato é muito, mas dois dias volvidos já tudo foi levado na espuma dos dias. Sic transit gloria mundi. Mas isso não desanima o Luminoso Mestre Mendes que retorna todas as semanas da sua caverna com novas alvíssaras para os mortais.
Agora que penso nisso, aqueles canhões também tinham a alma lisa. Mas, como aconteceu a Fermat, tão pouco tenho espaço para continuar a escrever sobre isto.

 

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