Para quem os euros dobram

PT, ALTICE, TVI

O problema de sermos confrontados, a cada passo, com a miséria moral de terceiros é que tendemos a normalizá-la e a esquecer-nos que, quando os euros dobram, as operações de multiplicação são, sempre, feitas à nossa custa.

Justamente no momento em que a, pelo menos, peculiar forma de gestão do Grupo Altice começa a ser questionada na praça pública e quase ao mesmo tempo que começam a ser conhecidas as estratégias de terror que estão a ser usadas na PT para “abater” funcionários, somos agora confrontados com a aquisição da TVI e demais empresas detidas pela Prisa por este mesmo grupo económico.

Recuperando a história – porque a memória é, por vezes, uma boa arma de defesa-, quando a Altice surgiu como a alegada salvação da PT, foram poucas as vozes que se levantaram, no sentido de vir esclarecer que, se fruto dos brilhantes negócios anteriores, a empresa estava moribunda, o que se preparava era o despedimento de centenas e centenas de trabalhadores e o esvaziamento do que sempre foi um símbolo do país. Na verdade, a história tem o condão de se repetir e a estratégia hoje seguida apenas espanta pela complexidade jurídica porque, no mais, não se afasta do que fora feito já noutras empresas.

No mesmo transe em que Paulo Neves acabou por se ver obrigado a dar o dito, isto é, que não despediria trabalhadores da PT, por não dito, ou seja, que, afinal, tal estava a suceder, é-nos agora anunciado que este mesmo grupo adquiriu à Prisa o grupo de comunicação social encabeçado pela TVI. Ou seja, aplicada a receita à ONI, à Cabovisão e, agora à PT, curiosamente sob a justificação de que as demais operadoras, têm menos trabalhadores que esta, o Grupo Altice prepara-se para vir fazer o mesmo na TVI e demais empresas, desde logo porque ainda estará para nascer um posto de trabalho que tenha sido criado por tais personagens mas, seguramente, os que destruiram amontoam-se na fila da Segurança Social e aumentam a cada minuto.

Diga-se, também, em abono da verdade, que o mundo dos órgãos de comunicação está muito longe do aspecto glamoroso (quando não escabroso) que nos entra pela televisão, alicerçado nuns poucos a auferirem milhões e em muitos com vínculos absolutamente precários e longas jornadas de trabalho. Já antes de ser adquirida que a TVI vinha degradando condições de trabalho e substituindo vínculos permanentes por recibos verdes de legalidade mais do que duvidosa, no que se não afastava dos seus concorrentes.

Para que dúvidas não restem, a aquisição da TVI pela Altice não vai salvar um único posto de trabalho e, seguramente, representará a perda de muitos. Do mesmo modo, não vai representar qualquer investimento no país e não vai melhorar o lixo televisivo com que somos contemplados ao jantar.

É certo que assistimos a tudo isto, entre um escândalo e outro, muitas vezes agradecendo por não estarmos ali e, outras, com o nosso tão português jeito de tornar tudo numa stand up comedy, entre um esgar e um sorriso de perplexidade.

O problema de sermos confrontados, a cada passo, com a miséria moral de terceiros é que tendemos a normalizá-la e a esquecer-nos que, quando os euros dobram, as operações de multiplicação são, sempre, feitas à nossa custa.

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