Os Pássaros

Em 1963 Hitchcock fez um dos mais brilhantes filmes de suspense do cinema mundial. Quem não se lembra d’Os Pássaros? Uma povoação é subitamente atacada por um bando de pássaros que sem motivo aparente e em voo picado não poupam ninguém. Gaivotas, corvos, aves com carisma e inteligência. É um filme que não vejo há seguramente duas décadas, mas do qual me lembro de forma vívida. Algumas das curiosidades é que foram usadas aves reais nalgumas das cenas, sendo usadas anchovas e carniça para as incentivar a fazer alguns dos movimentos que vemos.

É um filme a rever.

Em Portugal, 50 anos depois, assistimos a um espectáculo parecido. Mas como não somos Hollywood, a coisa é feita à nossa escala: ou seja, o enredo é pífio, os actores são medíocres e ninguém realiza coisa nenhuma, é tudo levado à rola a ver como sai de improviso. No entanto, parece-me que é elucidativo que a nossa política se identifique com a ornitologia.

Vejamos à vol d’oiseau os passarões autóctones. Ainda há uns que andam em liberdade, mas uns quantos já foram no entretanto anilhados, uma mão cheia já passou por um período de cativeiro, e para os lados de Oeiras, parece que se fazem testes para ver se a reinserção na fauna selvagem corre bem.

Esta semana assistimos ao voo despencado da ressabiada-cor-de-laranja. Não se pode chamar voo picado àquilo que aconteceu porque é uma ave que pela sua provecta idade e anquilosamento histórico já não tem flexibilidade para um majestoso planar preparatório de um ataque picado. Com a subtileza de um calhau, e igual capacidade aerodinâmica, esta ave confunde mergulho com acção da força da gravidade. E lá vem ela a acelerar 9,8m por segundo, achando que a sua incrível velocidade se deve a algo mais do que a queda natural de corpos inertes. Um peixe congelado faria o mesmo efeito. Mas o que provoca o ataque da ressabiada-cor-de-laranja? Terá sido a crise sido despoletada por ter avistado o seu alimento favorito – o bolo-rei? Não sabemos, talvez o tenha feito apenas para que se lembrem de que existe, quando na verdade já todos a julgávamos ou extinta, ou morta, ou convenientemente taxidermizada. Não se sabe se os relatos da sua morte foram exagerados, mas dada a raridade com que aparece, suscita sempre uma alvoroçada atenção. E ainda agora não temos a certeza.

Em contra-ataque veio logo o cuco-rosa.

O seu cantar (?) caracteriza-se por um rouco esgaçado misturado com o sibilar de um balão que se esvazia em fim de festa. Apresentar uma sonoridade lúgubre, pressagiadora de grandes desgraças que, felizmente acabam por não se verificar. Ou pelo menos não da forma como as anuncia. Manter afastado de bolo-rei, de que é feroz apreciador, tendo mesmo a capacidade de deglutir a fava. Saliente-se que foi debaixo da asa deste passarolo que medraram algumas variedades infestantes, cujo comportamento alimentar oscila entre o rapace e o necrófago.

Reagiu de pronto o cuco-rosa, ave territorial e que não aprecia movimentos que destabilizem este ecossistema avícula que tanto lhe custou a criar. O cuco-rosa, como todos os cucos, balda-se ao trabalho que não tenha visibilidade e de que não possa recolher louros. Por isso, quando quis chocar uma descendência, deixou que a maior parte do trabalho aborrecido ficasse para um pássaro de outra espécie, o tanso-seguro-rosa. Quando pressentiu que havia uma eclosão, o cuco-rosa veio rapidamente correr com o tanso-seguro-rosa do ninho e assumiu a paternidade de tudo o que havia sido feito. Do tanso-seguro-rosa não mais houve notícias, presume-se que tenha hibernado.

No entanto, o cuco-rosa calculou mal o tempo de choco, e precisou de colaboração. Pelo que iniciou uma dança de acasalamento em que agitava a sua plumagem luxuriante acompanhada de um trinado mavioso. É curioso que esta espécie, o cuco-rosa, adapta as suas cores às dos seus parceiros. Alturas houve em que foi avistado agitando uma coloração azulada para atrair um limiano-celeste. Mas deste vez as suas penas ficaram rubras porque o objectivo era captivar o operário-vermelho e o radical-ruivo, com o sentido de terminar de chocar o ovo.

E assim aconteceu. Neste momento a criatura nascida daquele ovo chama pai a todos os 3, ao cuco-rosa, ao operário-vermelho e ao radical-ruivo. Não percebe bem quem manda nem quem puxa os cordelinhos, porque todos afinaram de tal forma que conseguem gorjear a mesma música e ao mesmo ritmo. Algo nunca visto, mas que lá vai sendo levado para a frente.

Vivemos nesta floresta política, em que o chinfrim decorrente de tanto grasnar, chilrear, cachoar, crocitar, piar, cantar, gritar, retinir, palrar, taramelar, guinchar, trinir, assobiar e estridular, zinzilular, ensurdece. Mas na verdade, estamos reduzidos ao arrulhar de pombos com a mania que jogam xadrez: ignoram as regras, andam pelo tabuleiros a fazer disparates, e no final, deixam tudo sujo.

E pensar que Grace Kelly não protagonizou n’Os Pássaros porque ficou princesa entretanto.

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