Rita no país das autárquicas

Se não fossem tão caras, compensava largamente as eleições autárquicas ocorrerem todos os anos. Já que somos sempre chamados a pagar, o mínimo que se exige é que nos façam rir e, já agora, que tornem as ruas onde andamos limpinhas

(Quase à laia de confissão: durante anos, perante o espanto da minha família, assisti entre o sorriso e o horror aos comícios de Alberto João no Porto Santo. O meu lado mais sarcástico divertia-se imenso com cada palavra que saía do microfone similar aos dos cantores pimba e intercalada com um coro que gritava “quem é que não vê/ quem é que não acha/ que é Alberto João que põe o Porto Santo em marcha?”. Aparentemente, na multidão que se juntava no centro da vila eu era a única que achava que não era e que os avanços que foram sendo feitos se deviam muito mais aos turistas do que propriamente ao Governo Regional. O que é certo é que foi Alberto João a marchar e o Porto Santo continua absolutamente dependente de um turismo que é sazonal, com uma parte significativa da população activa que só trabalha metade do ano. Mudaram as moscas mas a essência manteve-se, por mais cartazes que se afixem a enumerar feitos que não tiveram a autoria que se procura fazer crer.)

Adoro as eleições autárquicas. Na minha área de residência, por exemplo, é habitual encontrar-se propaganda de candidatos a outras juntas de freguesia mas que não conhecem a demarcação da área territorial que pretendem dirigir. Para além dos cartazes mais inusitados, em que candidatas pedem para lhes chamarem Tixa (e, porque não?, faça-se a vontade à Senhora Dona Tixa…), das festas de verão mais rocambolescas, pagas com dinheiro dos contribuintes mas pensadas para a propaganda dos membros dos órgãos, existe toda uma panóplia de obras e de arranjos que são feitos, mesmo à queima das eleições, como se os eleitores tivessem uma memória de peixe e não percebessem que, uma vez depositado o voto na urna, a manutenção fica suspensa até ao próximo acto eleitoral.

Como se disse adoro estas eleições porque são o pasto perfeito para se encontrarem os “tesourinhos deprimentes” típicos de um Portugal que ainda não cedeu ao anglicismos e ao modernismo de se estar in. É certo que a designada retoma ainda não nos permite voltar aos tempos em que os candidatos distribuíam electrodomésticos mas em que outro país se conseguia ter um movimento cuja designação original era “Isaltino Oeiras Mais à Frente” a candidatar-se contra a pessoa que deu nome ao mesmo? O que é suposto pensar-se quando um candidato se apresenta à sua população sem uma única ideia mas prometendo quatro anos de garantia? Como podemos levar as Tixas desta vida ou os “Touros em Movimento” a sério? Não podemos.

Se não fossem tão caras, compensava largamente estas eleições ocorrerem todos os anos. Já que somos sempre chamados a pagar, o mínimo que se exige é que nos façam rir e, já agora, que tornem as ruas onde andamos limpinhas.

(Em contra-vapor: com exclusão do disparate sobre os ciganos, alguém ouviu uma única ideia sólida sobre a cidade onde reside? Não, pois não? Na realidade, as ideias são o que parecem menos interessar. Venha o folclore que, como se costuma dizer, tristezas não pagam dívidas. Na realidade, neste país parecem ser as festas de alguns a gerá-las. E por aqui me fico…).

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